Sobre nós, após a pandemia

No Financial Times, artigo de Yuval Noah Harari: o mundo após o coronavírus.

O autor de ‘Sapiens’, ‘Homo Deus’ e ’21 lições para o século 21’, Yuval Noah Harari, nos revela a chave da compreensão do que está em jogo como resultado da pandemia do novo coronavírus.

Yuval já vinha dizendo em seus livros e palestras que a década que se inicia é a mais importante para a humanidade. Em artigo no Financial Times em 20 de março de 2020, ainda no boom de expansão da pandemia, ele ressalta que as tomadas de decisões dos líderes globais mas também pelo comportamento coletivo global, moldarão sobre vários aspectos: saúde, economia, política e cultura.

Devemos nos perguntar que tipo de mundo habitaremos quando a tempestade passar, não apenas como superar a ameaça imediata. Muitas das decisões emergenciais de curto prazo que estão sendo adotadas pelos países se tornarão elementos da vida das pessoas.

“Países inteiros servem como cobaias em experimentos sociais em larga escala. O que acontece quando todos trabalham em casa e se comunicam apenas à distância? O que acontece quando escolas e universidades inteiras ficam online? Em tempos normais, governos, empresas e conselhos educacionais nunca concordariam em realizar tais experimentos. Mas estes não são tempos normais”. Escreve Yuval.

A chave da questão está em duas escolhas importantes. A primeira é entre a vigilância totalitária e o empoderamento do cidadão. O segundo é entre o isolamento nacionalista e a solidariedade global.

Aqui faço um paralelo com a carta encíclica Laudato Si, do Papa Francisco, no seu Paradigma tecnocrático, em que se aborda como raiz humana da crise ecológica, que a tecnologia, para o bem do desenvolvimento humano integral, não pode, como vem acontecendo, gerar mais ansiedade, perda do sentido da vida e da convivência social e falta de empatia e quebra de laços familiares e sociais.

Yuval destaca que a tecnologia hoje permite um supermonitoramento, com drones, sensores, algoritimos, bigdata. Na batalha contra a epidemia de coronavírus, vários governos já implantaram as novas ferramentas de vigilância. Câmeras termais em drones, celulares reconhecedores de faces e pulseiras biométricas. Uma variedade de aplicativos móveis avisa os cidadãos sobre sua proximidade com pacientes infectados. Tecnologias que antes eram usadas para combate ao terrorismo, agora são usadas contra a pandemia, logo permanecerão no dia-dia. Isso não é novo, há vários exemplos de medidas emergenciais que permanecem na história de cada país. Mas ele defende que há, nesse momento, uma transição dramática da vigilância de “sobre a pele” para a vigilância “sob a pele”. Governos e multinacionais agora querem saber mais do quê você procura com o dedo nos smartphones e de sua localização, mas agora querem saber a temperatura e pressão sanguínea nos seus dedos.

O problema está em empoderar as corporações com o seu sentimento frente a algum produto, vídeo ou momento.

Os algoritmos saberão que você está doente mesmo antes de conhecê-lo e também saberão onde você esteve e quem conheceu. As cadeias de infecção podem ser drasticamente encurtadas e até cortadas por completo. É possível que esse sistema possa parar a epidemia em questão de dias. Parece maravilhoso, certo? – Yuval
“É crucial lembrar que raiva, alegria, tédio e amor são fenômenos biológicos, como febre e tosse. A mesma tecnologia que identifica tosse também pode identificar risos. Se as empresas e os governos começarem a coletar nossos dados biométricos em massa, eles podem nos conhecer muito melhor do que nós mesmos, e podem não apenas prever nossos sentimentos, mas também manipular nossos sentimentos e nos vender o que quiserem – seja um produto ou um político.” Adverte.

Aqui, Yuval nos apresenta uma armadilha colocada pelos manipuladores do sistema crescente de vigilância e captura de dados. Lhe apresentam uma falsa batalha e, como em uma de verdade, você tem que escolher um lado, no caso se quer privacidade ou saúde. As pessoas geralmente vão escolher a saúde. Mas podemos e devemos desfrutar de privacidade e saúde.

Podemos optar por proteger nossa saúde e impedir a epidemia de coronavírus, não instituindo regimes totalitários de vigilância, mas capacitando os cidadãos. Nas últimas semanas, alguns dos esforços mais bem-sucedidos para conter a epidemia de coronavírus foram orquestrados pela Coréia do Sul, Taiwan e Cingapura. Embora esses países tenham feito uso de aplicativos de rastreamento, eles confiaram muito mais em testes extensivos, em relatórios honestos e na cooperação voluntária de um público bem informado.”

Uma comunicação com fatos científicos com a população e uma confiança nas autoridades públicas para lhes contar esses fatos são alternativa ao comando-controle e suas punições severas.

“Uma população auto-motivada e bem informada é geralmente muito mais poderosa e eficaz do que uma população ignorada e policiada.” Acrescenta.

Monitorar a temperatura corporal e a pressão podem permitir escolhas pessoais mais informadas, assim cada um poderia aprender a ver em quais momentos está colocando risco à saúde de outras e quais hábitos contribuem para a saúde. Se a população também tiver acesso aos dados e for capacitada a analisar estatísticas confiáveis sobre a disseminação do coronavírus, será mais capaz de julgar se o governo está dizendo a verdade e se está adotando as políticas públicas corretas.

“Lembre-se de que a mesma tecnologia de vigilância geralmente pode ser usada não apenas pelos governos para monitorar indivíduos – mas também por indivíduos para monitorar governos”.

Está aí um grande teste de cidadania e hora de escantear as teorias da conspiração e políticos que servem a si mesmos.

A outra grande questão é o isolamento nacionalista e a solidariedade global. A grande vantagem humana sobre o novo coronavírus é nossa capacidade de comunicação. Se pudermos compartilhar experiências e informação no combate à epidemia, com espírito de cooperação e confiança global. Deve-se também empreender um esforço global para produzir e distribuir equipamentos médicos, principalmente kits de testes e máquinas respiratórias, ao invés de produzirem e acumularem para si, distribuí-los de maneira mais justa. Precisamos “humanizar” as linhas de produção cruciais. País rico deve ajudar o país pobre, contando ser ajudado por outros caso precise, do contrário, cada governo fazendo suas próprias coisas em desconsideração dos demais, haverá mais caos e crise cada vez mais profunda.

“Nas crises globais anteriores – como a crise financeira de 2008 e a epidemia de Ebola de 2014 – os EUA assumiram o papel de líder global. Mas o atual governo dos EUA abdicou do cargo de líder. Deixou bem claro que se preocupa muito mais com a grandeza da América do que com o futuro da humanidade.”

O governo dos EUA chocou o mundo ao tentar comprar da industria farmacêutica da Alemanha os direitos de monopólio de uma nova vacina contra o Covid-19.

“A humanidade precisa fazer uma escolha. Iremos percorrer o caminho da desunião ou adotaremos o caminho da solidariedade global? Se escolhermos a desunião, isso não apenas prolongará a crise, mas provavelmente resultará em catástrofes ainda piores no futuro. Se escolhermos a solidariedade global, será uma vitória não apenas contra o coronavírus, mas contra todas as futuras epidemias e crises que possam assaltar a humanidade no século XXI”, finaliza Yuval.

Original na 

https://www.ft.com/content/19d90308-6858-11ea-a3c9-1fe6fedcca75

Yuval Noah Harari. The world after coronavirus. Life & Arts. Financial Times, 

A imagem desse post é do vídeo demonstrativo do termo monitoramento pela China. 

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