Aos 40 anos do Partido dos Trabalhadores

O aniversário do Partido dos Trabalhadores deste ano é especial. E dois motivos e uma inspiração me levaram a escrever esse texto.
Agostinho Valente e Lula no calçadão de Juiz de Fora.

O aniversário do Partido dos Trabalhadores deste ano é especial. E dois motivos e uma inspiração me levaram a escrever esse texto. Primeiro por fazer parte de uma geração que nasceu no período da redemocratização brasileira e, segundo, por ser filho de sindicalistas bancários fundadores do PT. A inspiração vem da cineasta Petra Costa, diretora e atriz do documentário Democracia em Vertigem. Estou na torcida para que ganhe o Oscar, mas já é vitoriosa pelo belo trabalho documentado. Não só por um recorte específico e trágico da frágil democracia brasileira. Sua narrativa é corajosa e necessária, do ponto de vista de relato pessoal de sua história, inclusive frente ao processo de redemocratização. Inspirei-me e senti o dever de fazer minha narrativa, de contar como percebi a história desenvolvida pelas pessoas do Partido dos Trabalhadores.

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Quando nasci meu pai foi candidato a prefeito de Juiz de Fora. Era 1982. Ele tinha sido presidente do sindicato dos bancários e fundador do PT e, no ano seguinte, da CUT. Disputou com Tarcísio, Renê, Sebastião Helvécio, vencido pelo primeiro.
Minhas primeiras memórias políticas começaram percebendo no noticiário de TV as chamadas do plantão para a situação da saúde de Tancredo. Nos meses e anos seguintes as figuras de Sarney, Ulisses, Montoro, Quércia, Brizola e Erundina ficaram mais frequentes, isso por volta de 1986-87. Acompanhava os jornais escritos buscando passatempos porque meu pai comprava e lia todos jornais, quando não me enviava os cadernos infantis por correio. Sempre gostei de ir às bancas de jornal com ele, prática que ainda tenho.
Eu morava em uma rua que tinha um hospital psiquiátrico feminino, o hospital São Marcos. No muro desse hospício havia uma pichação “Abaixo a Ditadura, Diretas Já”. Passei inúmeras vezes na calçada e escutava os gritos das mulheres, com espanto e tristeza. À noite via as enormes ratazanas, típicas da cidade naquela época, saindo dos canos de drenagem dos altos muros do hospício. Meu desconforto – porque eu era muito pequeno para me indignar- era respondido com a explicação de que lá no PT, a luta antimanicomial era defendida pelos irmãos Delgado.
A luta por eleições diretas e a luta antimanicomial integrada com a luta pelos direitos das mulheres foram minhas primeiras trincheiras. E sabia que era o Partido dos Trabalhadores que agregava as pessoas nessa defesa. E percebia também quem nos cerceava e colocava medo, estava lá embaixo, em um quartel em plena rua Padre Café, no bairro São Mateus.
Lembro-me de ver meu pai discursando em cima de Kombi, caminhão, vemaguetti, palco pequeno, palco grande, plenárias. Valente e emotivo. Eu brincava com os megafones. Rodava a cidade em cima de caminhão de campanha e o encontrava mais tarde, ficava até tarde. Viajava com ele, pernoitava em casas de outros companheiros de luta.

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Em Juiz de Fora, a sede do partido tinha uma atmosfera vibrante, havia ativismo e militância. Sentia a adrenalina dos debates das prévias e a ansiedade na pesquisa de votos. O PT de Juiz de Fora foi muito intenso e por isso é ainda, muito mobilizado. Funcionava em frente a uma casa de um general na rua Barão de Cataguases.
Um partido de pessoas, nascido de uma frente convergente de oposição, querendo o voto direto. Plural com a mistura de pautas e pessoas. Sindicatos, pastorais, pequenos agricultores, professores, artistas.
Meu primeiro voto a vereador em Juiz de Fora foi para Natanael, que já tinha sido o primeiro vereador do PT na cidade. Tenho muitas memórias boas de companheiros do PT, diga-se de passagem ativos até hoje, jamais abandonaram os ideais, como Gilson, Betão, Baleia, Baião, Nádia, Hugo, Biel, Sérgio Vianna (aliás, o Sérgio no meu nome é homenagem do meu pai a ele) entre outros “tios” e “tias” – como crianças veem os adultos -que encontrava mais regularmente na lanchonete anexa ao Banco do Brasil da rua Halfeld ou na AABB.
Conheci pessoas do partido que foram eleitos naquela época e merecem muito reconhecimento: Nilmário Miranda, Patrus Ananias, Virgílio Guimarães, Chico Ferramenta, Ivo José, José Dirceu, José Genoíno, Sandra, Benedita, Tilden Santiago, Lula.

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Sempre viajei muito com meu pai, principalmente nos períodos de greve do Colégio João XXIII quando passava a ficar com ele. O apartamento alugado perto da Assembleia era uma república democrática. Aprendi a andar de bicicleta na praça ALMG. Andava tudo por lá, os gabinetes, as comissões, os auditórios, as exposições, as bancas de jornal. Me recordo de discussões bem acirradas que meu pai fazia contra o governador Newton Cardoso e também ao deputado Sérgio Naya. Por algum tempo andei escoltado para ir para escola.

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Eleição de 1989: Lula lá, sem medo de ser feliz. A transição para a década de 90, o sentimento era claro de um país de 3º mundo, de miseráveis, a cólera estava disseminada por todo o país e dava o tom na saúde coletiva, complicada por muitas outras enfermidades graves. A eleição foi muito intensa e me lembro da revolta que deu a manipulação do debate da Globo. Lula não tinha conseguido, no entanto meu pai foi eleito deputado Federal. Na Câmara Federal não foi diferente, as pessoas trabalhavam muito, viveram intensamente a vontade de fazer políticas públicas para uma variedade de grupos historicamente oprimidos. Tinha fila de atendimento no escritório em Juiz de Fora. Havia um ônus por ser filho de político, mas me recuso a remoer isso, aprendi a respeitar o drama das pessoas e quando a questão era ser filho de alguém público busquei minha vocação. Mas o que ficou marcado mesmo, no colégio, p.ex., foi a identificação dos amigos, funcionários e professores com um programa popular de defesa do Trabalho.

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Meu pai é um quadro do Partido, fundador, constitucionalista do Estado de Minas Gerais, deputado estadual e depois deputado federal, esteve na melhor gestão da prefeitura de BH com Patrus Ananias, esteve com ainda no ministério do planejamento com Guido Mantega, época de maior crescimento do Brasil. Foi vice-presidente na CPI da previdência que prendeu a Georgina no exterior com barras de ouro. Sempre do lado do trabalhador, usando da boa política e combateu a corrupção e a injustiça. Lembro de vê-lo bem-humorado no programa Fala Garoto! Do Serginho Groisman abordando sobre política de trânsito. O normal era vê-lo nos palanques, púlpitos e rodas discursando bravamente. Percorreu toda Minas Gerais e muito do Brasil. Chegou a ser um escudo do Lula, como eram chamados aqueles que faziam vigília para não o atacarem. Trouxe muitos recursos para Juiz de Fora. Me lembro de recursos para a saneamento do córrego Santa Luzia e da escada de emergência do prédio da prefeitura, aquele da Cesama e de algumas Secretarias. Meu pai sempre teve a política como ideal e sentido de justiça ao trabalhador contra as corporações econômicas. Nunca se enriqueceu com a política, sua aposentadoria é simples como advogado do Banco do Brasil, não tem aposentadoria por ter sido deputado. Meu pai ainda fez várias boas políticas e pode fazer muito mais, mas já merece uma biografia. Valente não foge à luta.

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Quando finalmente Lula foi eleito em 2002 a emoção nos fez chorar como uma vitória contra a opressão. Eu já estava na Universidade Federal de Juiz de Fora, cursando Ciências Biológicas, e já vinha desde 1988 sabendo o que era o descaso dos governos com a escola pública. Na universidade faltava giz, papel higiênico, quando queimava a luz do retroprojetor não se trocava, os microscópicos eram doados da Alemanha, sucata do nazismo. O governo só falava que a solução era cobrar mensalidade, privatizar. Os casos de corrupção eram abafados. Os fundos do colégio de Aplicação eram um depósito de sucata. Hoje é o Ensino Médio fortalecido. Quem me dera ter tido a oportunidade de na graduação poder estudar fora do país por meio do programa da Dilma, Ciências Sem Fronteiras, teria aproveitado a experiência, mas fui feliz por ter visto alguns alunos irem pra fora, a maioria não sabia como era antes, para valorizar ainda mais e aproveitarem.

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Alguns críticos se incomodam quando dizemos que o PT foi o partido que mudou o Brasil. Digo a eles se realmente acreditam nisso podem então concordar que foi o partido que fez o Brasil funcionar. Engrenagem, tudo no seu lugar, com suas metas, planos, resolução de conflitos.
O PT não fez mais porque teve que lidar com o Congresso cada vez mais conservador e com mais partidos.
Alguns cismam em falar em erros do PT no governo, sem citar fatos, mas julgando com seus vieses ideológicos. A democracia hoje é considerada falha porque o corporativismo capitalizado forçou massivamente a desorientação popular pelas duas pechas de engodo mais repetidas na história contra partidos de classe trabalhadora: a corrupção e burocracia.

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Espero a renovação de sua militância, um fortalecimento maior com ativistas, ambientalistas, movimento negro, de gênero, feministas, educadores, cientistas, empreendedores, agricultores familiares, artistas, religiosos e toda variedade de comunidades tradicionais. Espero o que espero de um partido de verdade e popular, atuando para a justiça social, desenvolvimento humano, política públicas, disputa política, participação e controle social, pensamento ecológico e científico, criação de oportunidades de trabalho, democracia e liberdade, senso de comunidade e solidariedade. Esclarecer ao povo sobre a disputa de classe.
O que não espero é o PT fazer assistencialismo, deixando o debate sobre a universalização de direitos. Não espero também que lide com a hegemonia política de forma autoritária, como vemos a direita radical fazer ultimamente. Mas sim pelo lado da educação e das reformas política e tributária com justiça e inserção social, entendendo a vocação ecológica e popular do Brasil. Assim vamos cuidar das questões da Saúde e Trabalho.

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A criticada postura de coalizões depende muito mais do quadro que os eleitores eleger para o legislativo, não ter a governabilidade força ampliar alianças e isso demonstrou atrasar a capacidade reformista da esquerda.
O PT sempre esteve e estará nas ruas, companheiros antigos e novos estão sempre lá, nos centros das cidades convocando o trabalhador que passa na longa jornada de volta pra casa para que ele se manifeste. O partido tem suas reuniões, que estão sempre abertas esperando a participação. Com consciência de povo, de classe, espero que vá ao partido, se filie, participe, cobre, se candidate para ajudar no que cabe fazer. Esse papo de que o partido afastou das bases, não acredito, o partido sempre esteve com muita capilaridade no país todo. No governo procurou dar ganho de escala às políticas públicas e a arrumar o orçamento e destinação de impostos para saúde e educação. Querem que o PT volte a fazer sopão com igrejas como no tempo do Betinho? Foi um baita exemplo e ponto de partida, mas a evolução foi dar acesso a políticas de proteção social e distribuição de renda. O povo sabe o papel que o partido tem na defesa e justiça social do brasileiro. Vale lembrar que Haddad ganhou na maioria dos municípios brasileiros. O que aconteceu na eleição foi uma série orquestrada e financiada, não barrada pelo STF, como as fake news, impulsionamento ilegal de propaganda, a retirada de Lula da disputa. Lula crescia nas pesquisas mesmo retido na polícia federal, era a prova da consciência de classe do povo, da rebeldia popular contra parte do judiciário mais caro do mundo.
A história do PT é muito bonita e continua a ser a maior trincheira contra a escravidão moderna do mundo capitalista. A elite do capital no Brasil nunca abriu mão de seus privilégios e há séculos é autoritária e violenta, mas o povo consciente e trabalhador não pode abrir mão de sua organização porque essa é nossa força e eles sabem disso.
Por isso, viva os 40 anos do PT, vamos festejar com a Cultura brasileira, a mais rica do planeta. Que cada um dos mais 2 milhões de militantes e simpatizantes do PT feche os olhos, sonhe, pense e faça um pedido com muita vontade e sopre a vela desses 40 anos.
(Arthur Sérgio Mouço Valente – Juiz de Fora, MG)

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